Capítulo 3
Na noite anterior a essa terça-feira ela havia dormido pouco, o sono lhe escapava cruelmente, os sentimentos iam devorado-a aos poucos. Estava cheia dele, a tal ponto que dentro dela não havia espaço para qualquer outra coisa: pensava nele, imaginava ele, deseja ele, fantasiava com ele, o turbilhão de emoções e sensações que a sacudia de um lado para o outro lhe impedia de descansar, apagar seus pensamentos, deixar-se cair no vazio e ficar envolvida pela escuridão, pelo menos um pouco.
Ficava tonta.
Por isso havia passado toda a noite rodando de um lado para outro na cama, enfiando o rosto em meio dos lençóis e dos travesseiros, imaginando que eles estavam encharcados do perfume dele, imaginando como seria dormir entrelaçada a ele, escutando as batidas de seu coração. Nas ultimas semanas, poucas noites haviam sido diferentes a essa, poucas vezes havia dormido por cansaço de longas jornadas de trabalho, poucas noites havia conseguido descansar; Mas inclusive nessas escassas madrugadas não tinha conseguido escapar dele, porque ele estava em cada segundo das projeções de seu inconsciente.
Atrás de um par de lentes escuros ela escondia seus olhos verdes nessa manhã, em uma tentativa de que não notassem o quão exausta estava. Já estavam acabando as suas desculpas e explicações para conformar aos técnicos, maquiadoras, e colegas que perguntavam se ela estava bem, devido ao seu provável aspecto. Não podia lhes dizer a verdade, é claro que não! O que ia dizer a eles? "estou pálida e horrorosa porque fique doente de amor e não sei o que fazer e passo toada a noite pensando nele e sorrindo como uma tonta, imaginando qual seria o sabor exato de seus beijos" ? Foi engraçado imaginar uma cena dela dizendo essas palavras -ou uma variável delas- a outro ser humano; até agora suas confissões de mulher enlouquecida por um homem que não a correspondia haviam sido feitas unica e exclusivamente para algumas folhas de papéis de um caderno velho, onde com sua letra cuidadosa quebrava um pouco desse mar que dentro de si se exaltava cada vez que se olhavam, cada que que sorriam, cada vez que se tocavam, e cada vez que respiravam o mesmo ar.
Estava perdendo o controle de si mesma, disso não tinha duvidas.
Por causa dele, já não conseguia dormir como uma pessoa normal.
Por causa dele seus padrões de sonhos estavam transtornados.
Por causa dele os dias haviam se tornado em uma soma de horas dedicadas a admirar-lo em silêncio e secretamente, e as noites em uma mescla de minutos inexatos dedicados a passar inquieta com os olhos cravados no céu raso ou com o rosto enterrado nos travesseiros do lado oposto que ela costumava dormir (O travesseiro que ele usaria, se dormissem juntos, em sua cama), permitindo que todo esse amor incomensurável a devorasse aos poucos.
Era grave
Sua paixão era, definitivamente, grave
As vezes quando ele lhe perguntava por que parecia tão cansada, por que estava tão horrorosa ou por que tinha o aspecto de alguém que esteva a noite inteira brigando com o travesseiro, tentando conciliar um sonho evasivo e malvado, ela tinha vontade de responder a ele com a verdade: " penso em você o tempo todo, você transtorna meus pensamentos, me consome, me prende com cada gesto, e cada coisa que faz ou diz faz com que eu me apaixone mais perdidamente por você, e não sei o que fazer contigo nem comigo ou com meus sentimentos. Estou doente de amor por você e minha doença tem nome e sobrenome: Nathan Fillion".
Mas sempre se continha.
Sempre mordia a língua.
Trancava as palavras.
E ficava com o sabor amargo em sua boca.
E a doença continuava avançando.
Os sintomas estavam piores.
E ela se apaixonava cada vez mais.
Estava apaixonada até os ossos por um homem que a via apenas como uma companheira de trabalho e nada mais, uma colega, uma atriz com a qual compartilhava a fama e o êxito, nada especial, nada diferente, nada significativo.
E isso partia seu coração em dois.
E isso a deixava tonta
E isso lhe tirava o sono.
E quando aquela manhã de terça-feira ele lhe deu bom dia e comentou que parecia mais cansada do que de costume, ela teve que se segurar com força para que não lhe escapasse desde o fundo de sua alma uma frase do tipo " não durmo por que meu cérebro se recusa a desligar por um momento e deixar de pensar em você, e quando é muito bondoso ele me permite dormir me torturando docemente fabricando sonhos que nós dois fazemos amor".
Não lhe disse nada
Outra vez guardou para ela as palavras.
As guardou dentro de si, para depois expulsá-las escrevendo grandes parágrafos sobre seu amor não correspondido.
Por que acreditava que ele não tinha o mesmo interesse nela.
Por que acreditava que ele não a olhava de maneira diferente a qualquer outra companheira.
Por que acreditava que el recusaria qualquer tentativa de sua parte a conhecerem-se mais.
Se limitou a responder-lhe qualquer bobeira, outra desculpa, outra mentira, para escapar da situação.
Não suspeitava que a noite anterior ele também não havia pregado um olho, havia estado ocupado, perdendo tempo com outra mulher, tentando esquece-la, tentando torá-la de sua cabeça.
Por que ele, igual a ela, também tinha medo.
Eram medo diferentes, claro.
Mas medo do final.
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